sexta-feira, 05 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Trapaça, quem está trapaceando quem!

Dois bons filmes em comentário de DB
15/02/2014 às 11:52
 Trapaça; Dirigido e co-roteirizado por David O. Russell, EUA, 2013. Muitas vezes em nossas vidas por situações diversas deixamos de lado nossas intuições para que não se tire os pés do chão e não se estrepe totalmente. Baseado em fatos reais nas Novas: Yorque e Jérsei de 1978, o filme conta a trajetória de um casal charlatões do ramo das artes, especificamente da pintura, falsificadas. 

   Com as falcatruas o casal prospera ao ponto de estabelecer uma filial em Londres para o ramo de revenda de quadros originais, mas que nunca não tinham um passado obscuro, ou seja, não era nítida a origem das obras primas que se vendiam por supostas originais pela dupla. 

   Aí com essa situação do que é falso ou o que é original o filme ou o seu roteiro nos pergunta ou nos faz pensar ao menos: Será que essa idéia de falso ou original é mesmo tão distante assim uma da outra? Será que de uma maneira ou outra sempre estamos representando e por isso poderíamos nos classificar como obras ou pessoas falsas ou também? Há de convir de quem insiste em só falar verdade na vida invariavelmente se dá mal, e muito por sinal. 

   Pois bem, com essa percepção de que existe um limiar bastante tênue do que é ser falso ou original podemos tentar fazer algum juízo de valor moral aos personagens da trama. Por início temos dois supostos picaretas que viviam vendendo obras de artes falsas, como já fora mencionado. Um dia qualquer do seu negócio atípico ou ilícito o casal cai numa armadilha de um agente do FBI que se passa por um comprador de obras artísticas e desmascara os dois os levando para a prisão. 

   Mas na trama existia muitos “poréns”, e o primeiro deles é usar os dois ladrãozinhos pequenos para pegar outros peixes maiores que existia no esquema que se expandia em políticos , empresários e mafiosos. 

   O agente do FBI faz um plano com os dois meliantes que acabara de prender que era o seguinte: se, e se somente se, os dois ajudassem a prender os caras que na real davam as cartas para esses esquemas de corrupção que se alongavam em lavagem de dinheiro, liberação de alvarás para construção de Cassinos na Nova Jérsei em expansão de 1978, formação de quadrilhas e outras cositas mais pesadas, a pena de prisão do casal seria diminuída na cooperação do plano audacioso do ambicioso e maluquinho agente do FBI. 

   Então o casal é solto concordando com o acordo de colocar nas grades os tubarões das propinas que queriam transformar Nova Jersey em uma das maiores economias do país com cassinos pra lá de suntuosos onde não existiam limites para nada, tudo era permitido rolando dinheiro.

    A primeira vítima do casal e do agente fora logicamente o prefeito da cidade, onde este de fato tinha vontade “boa” de transformar sua cidade em um lugar prospero para os latinos e pobres que lá viviam, mas como em política não existe tal bondade sem que essa não se prenda a algum esquema maior que engane as próprias leis da cidade

   Ou seja, neste caso especifico (mais que pode ser expandido a qualquer outra cidade em desenvolvimento como Salvador ou qualquer outra cidade do nordeste brasileiro) para que a cidade crescesse para todos seria necessário um plano secreto, e plano oculto este que necessariamente teria que não seguir rigidamente as regras estabelecidas, ou em outras letras, seria necessário que negócios de “fundo do pano ou baú” tivessem que ser feitos para que uma cidadezinha pequena se transformasse em uma cidade grande economicamente. 

   E esses tais negócios secretos foram feitos com promessas de propinas para políticos, para a máfia e para mais quem tivesse saco para entrar no esquema das construções dos cassinos irregulares em que a máfia comandava. Máfia esta interpretada pela figura única, porém já suficiente pelo seu currículo de papéis no ramo de Robert DeNiro, com uma aparição pequena, porém marcante interpretando um mafioso conhecido como matador sem escrúpulos e culpas de enganadores engraçadinhos para com a máfia. 

   O trio formado pelo agente do FBI e a dupla de falsificadores de obras de artes ia bem, conseguindo colocar muito gente grande em maus lençóis, até que surge uma personagem na trama que mudaria todos os planos do trio até então impecável: A ex-esposa do homem falsificador que tinha um caso com sua parceira. 

   A mulher usava o filho que teve com o cara para deixá-lo emocionalmente em suas mãos, fazendo a performance de uma mulher depressiva e meio louca. O cara então se prendia a esposa, ou ex-esposa, o filme não deixa claro essa questão, e por essa situação afetiva pendente ele não consegue planejar um plano de fuga com sua parceira de negócios enquanto estavam soltos para investigar com o agente do FBI os peixes grandes a serem pegos com a ajuda ou armadilha deles.

    O fato curioso do filme se sucede justamente quando essa mulher meio louca, meio intuitiva entra no esquema indo a jantares na casa do prefeito e por sua extrema naturalidade ou incapacidade de manter-se de boca fechada acaba por estragar os planos do pai do seu filho, colocando agora todas as vidas envolvidas na trapaça de plano em pegar peixes grandes em perigo, inclusive a vida dela e de seu filho sem ao mínimo que ela tenha a lucidez do que fez abrindo sua boca para um suposto namorado que trabalhava para a máfia, sem ela saber: óbvio . 

   O filme é interessante porque em seus 138 minutos de projeção nunca sabemos quem está trapaceando quem: Existe sempre uma dúvida no ar de que aquela suposta trapaça ou plano atingirá há quem ou quando. Como um dos atores diz: “No mundo da ficção sabemos exatamente o que irá suceder-se, mas no mundo real isso é impossível de acontecer, no mundo real muitas vezes o falso é o verdadeiro e o verdadeiro não poder ser ele, sendo este assim falso”. O filme faz quase um apelo para que as pessoas acreditem mais em suas intuições, que ainda há jeito para a bondade humana, enfim ao menos entendi dessa maneira.

    Importante também ressaltar que trata-se de um filme de elenco onde cada personagem ajuda no filme como um todo de uma maneira geral, e que o filme já ganhou o Globo de Ouro de melhor filme em Janeiro, que é uma prévia do Oscar, e entra como um dos principais favoritos a melhor filme, melhor atriz coadjuvante e outras estatuetas no industrial Oscar em março agora, então é ver e aguardar para crer, embora ache que tenha outros filmes melhores na competição ao prêmio.
 
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   L’enfant d’ en Haut ou simplesmente em bom português: Minha Irmã, com direção de Ursula Meier,França, Suíça, 2012. O filme foi Urso de Prata no Festival de Berlim daquele ano, e ainda conta no elenco com o ator mirim Kacey Mottet Klein em estupenda atuação e também com a renomada atriz que fez o premiado filme este ano em Cannes: Azul é a Cor Mais Quente ( Léa Seydoux). 

   A estória é a seguinte: Em uma estação de esqui de luxo nos Alpes Suíços um menino descolado de 12 anos vive com sua irmã desempregada( Léa Seydoux) nessa estação turística, mas especificamente na parte baixa dela ou na cidade que abastece a estação, que fica na parte de cima onde os turistas se hospedam. 

   A relação dos irmãos é um pouco estranha e fria no início do filme, mas no decorrer dele diagnosticamos um significado real para esta relação ser assim, digamos tão distante ou não-padronizada. Sua irmã que tinha idade para ser sua mãe era sustentada pelo seu único irmão de 12 anos, ou seja, era mantida por uma criança.

   E essa criança tinha uma forma politicamente incorreta de arrumar dinheiro para dar a sua irmã, a ele mesmo , e também para pagar as contas do lar e o rango dos dois, ou seja roubava para sustentar os dois, inclusive comprando roupas de frio para sua irmã, que inicialmente no filme parece uma aproveitadora do irmão de 12 anos de coração grande e ingênuo. 

  Entretanto no decorrer do filme percebemos que de ingenuidade esse menino não tinha nada, pelo contrário, ele era bastante arguto, esperto. Todos os dias quando pegava o bondinho para subir na estação onde os turistas ficavam o garoto arguto nesse curto caminho e tempo já arquitetara seus planos de roubo que eram “passar a mão” nos melhores esquis que os turistas deixavam nos vestiários sem qualquer tipo de cadeado ou outra forma de segurança, afinal quem poderia desconfiar que seus equipamentos de esqui de luxo, e caríssimos por sinal, seriam roubados por uma criança em uma das estações de neve mais glamorosas da Europa? 

   Geralmente essas pessoas endinheiradas não se preocupam com tais coisas ou essas preocupações supérfluas de saber onde foram guardados seus esquis. Então era nessa brecha da distração burguesa quando se divertiam na neve dos Alpes que o tal menino malandro de 12 anos chamado Simon conseguia levar o “pão de cada dia” para ele e a sua desempregada e instável irmã. Sim: ele ia aos vestiários e aos lugares que eram destinados a guardarem os esquis e roubava tanto o dinheiro que encontrava nas bolsas dos turistas como também todos os equipamentos de esqui, inclusive todos os esquis que encontrava pela frente e os escondia debaixo da neve em um lugar distante para não “dar na cara” o furto.

    Assim Simon passava de irmão para marido- provedor de sua própria irmã, embora esta sempre o deixasse abandonado durante praticamente todo o filme com saídas repentinas com vários homens diferentes com belos carros e sempre voltava com um olho roxo ou marcas mais fortes do tipo. Simon vivia e sentia esses relacionamentos nada saudáveis da irmã, pois os caras dormiam com ela na casa onde ele estava e morava. Por surpresa Simon levava isso numa boa; Não ligava para que horas sua irmã chegasse em casa, e isso quando voltava depois de noitadas com cada dia um namorado diferente, mesmo dando dinheiro a irmã para a diversão , enquanto ele só trabalhava. Com a solidão por parte da irmã nunca estar em casa, Simon tenta achar algum vínculo familiar ou algo que parecesse com isso com os turistas nas estações de luxo dos belos Alpes.

   Como tinha dinheiro pelos roubos e pelas revendas que efetuava no mesmo local ( essa é a parte “buracada” do filme: Como o garoto poderia roubar e vender os mesmos produtos furtados na mesma estação sem que ninguém percebesse? ) Fora esse erro roteiral em que não atrapalha em nada no filme em demasia e também voltando ao foco deste o garoto com o dinheiro da revenda dos produtos em mãos vivia como se fosse um garoto igual aos outros que lá estavam, porém sempre era visto sozinho comendo os melhores hamburgers e batatas fritas com Milk-shakes com uma cara de prazer infinita. 
E é exatamente isso, ou seja, o fato de andar sempre só e por isso procurava se juntar as famílias que turistavam por lá, ou seja mais uma vez, esses dois fatores juntos o fizeram a “casa cair” para o garoto loiro, educado e aparentemente fora que qualquer suspeita ( até mesmo porquausa de sua pouca idade de 12 anos ), E enfim ou por fim descobriram certo dia que não se tratava de mais um turista pré-adolescente qualquer, mas sim de um ladrãozinho e com muito dom para essa profissão, escreva-se de passagem. Com o impedimento de Simon agora de subir até a estação para sustentar a casa, sua irmã agora teria que entrar na jogada e trabalhar ( já que ela, diferente do irmão, não tinha o dom do furto) para se sustentarem. Eis que no primeiro emprego da irmã, Simon aparece para furtar algumas coisinhas ( vícios da profissão, fazer o que?), e os dois são mandados para fora quase aos pontapés no logo no primeiro dia de trabalho de sua irmã parasita. 

   Tem uma coisa no filme que me cocei para não contar e de fato não vou fazer isso, pois explicaria o porquê do distanciamento dos irmãos e até certo ponto a raiva que a irmã tinha do seu irmão único e caçula. Já matou a charada: o xis da questão do filme para que os protagonistas agissem como agiram, ou seja, de forma tão distanciada um do outro: Não ainda? Então vejam este belo filme, afinal um Urso de Prata do festival de Berlim nunca será um filme qualquer.