sexta-feira, 05 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

O Mordomo da Casa Branca, uma aula de história

Claro que os políticos do partido conservador que não aceitavam as modernas regras de direitos iguais para brancos e negros naquela época para aquele país
08/02/2014 às 18:07
O Mordomo da Casa Branca, dirigido e co-roteirizado pelo afro-americano Lee Daniels, EUA, 2013. Baseado em fatos reais o filme é esplendorosamente protagonizado por Forest Whitaker, interpretando a personagem que dá nome ao filme, ou seja, o próprio mordomo da casa branca. 

  Nos EUA o cultivo do algodão era bastante presente no período de escravatura, isso mais ou menos até o final do século XIX. É nesse período que o filme se inicia com o mordomo, que na época era um garoto de seis anos de idade, vê a sua mãe ser estuprada pelo senhor branco que a comprou e após o estupro esse mesmo fazendeiro assassina com um tiro certeiro na cabeça o seu pai quando percebeu o acontecido ou estupro. 

  O garoto então se cria órfão em meio a essas lembranças e ao redor de muitos algodões para serem colhidos. A mulher do branco fazendeiro tarado sente pena de uma criança de pouca idade e a chama para ser um empregado de casa, coisa ou trabalho que para época era de muito prestígio entre os negros. De 10 que trabalhavam com algodão os 10 gostariam de largar a dura jornada do campo para servirem seus donos em seus casarões. 

   Esse menino por ter tido uma mãe negra absurdamente bela, conseguiu tal privilégio ou sorte em não cortar a mão todo santo dia para colher os malditos algodões cheios de espinhos. O garoto com a ajuda dos serviçais mais experientes prospera com os ensinamentos e logo quando fica um pouco maior é oferecido a trabalhar na cidade como garçom a um branco mais liberal que não usava os negros como escravos, mas sim como empregados baratos; E isso só aconteceu de o garoto sair da fazenda que o comprou devida à certeza de que quando o menino crescesse um pouco mais certamente tentaria vingar a morte dos seus pais. 

   O covarde fazendeiro pressentindo o perigo o mandou embora antes que uma desgraça acontecesse com ele e sua família, pois já via ódio nos olhos do garoto serviçal, afinal de coisas como essas, que é ver seus pais sendo assassinados, não se esquece, e isso a pessoa sendo escrava ou não). Em seu novo trabalho e sua nova cidade, agora urbana, ele aprende tirar pratos, talheres e copos e colocá-los em seus devidos lugares à moda francesa com uma perfeição que nem os mais velhos empregados conseguiam. 

   Pela excelência dos seus serviços sua fama de bom garçom chega a Casa Branca , que para quem não sabe trata-se da casa onde vivem os presidentes norte –americanos depois de empossados para o cargo. Então com o agora dito “emprego respeitável “ de trabalhar como servente de terceira classe na casa branca e ter um mísero salário, coisa que seu pai nunca sonhou em ter, o protagonista arruma uma mulher para casar, interpretada pela entrevistadora Oprah Winfrey, esta por sinal a atual mulher mais influente da comunicação daquele país, fazendo seu primeiro papel de uma alcoólatra no cinema, e não se sai mal se tratando do seu primeiro papel de peso no cinema. Pois bem: agora com mulher e um salário estável para época vem em seqüência uma renca de filhos, mais precisamente três filhos homens. 

  O mais velho e mais genioso vê seu pai colocar terno para ir trabalhar todos os dias no palácio presidencial e pensa: “ Eu não quero ser igual a ele, quero mudar o meu país”. Também pudera, o garoto tinha como mentor intelectual nada menos que Martin Luther King: O negro mais influente de toda a história da humanidade onde queria um EUA igual para todos os seus cidadãos. A colisão ou o atrito do roteiro do filme se dá entre o pai, o mordomo da casa branca e por isso defensor dos seus patrões, os quais eram os patrões do seu país também, e de outro lado deste atrito se encontrava seu primogênito intelectual e politizado, que era radicalmente contra todos os presidentes que passavam pela White House e faziam vistas grossas para a igualdade dos direitos entre brancos e negros.

    Todos os presidentes até então não estavam nem aí com o problema racial que afogava o país, exceto um: Kennedy. Este que morreria assassinado por querer mudar ou abrandar as regras raciais, como as de banheiros e bebedouros ou vagas em restaurantes e ônibus destinadas a de um lado só para brancos ( lógico o lado em que tinham os bancos de couro e ar-condicionado ou os ônibus ou restaurantes e bares com os piores lugares para os negros, etc. ).

    Pois bem: não sei se foi só por querer “começar” a defender os negros ou pela influencia de Luther King que já instaurava em todo país continental que o presidente Kennedy tomou um tiro fulminante no coração durante um passeio no seu Cadilac conversível vermelho com sua esposa. Fato é que na política ninguém é bonzinho. 

   Se o presidente Kennedy “resolveu” comprar de forma leve a luta de Luther King é porque motivos sérios ele teve para tal decisão. O país através dos discursos do seu líder negro passou a apoiar o movimento de igualdade de diretos para todos, independentemente da sua raça. Kennedy não teve outra opção a não ser apoiar as mudanças sociais que estavam borbulhando em todo canto do país que governava e por uma medida popular e estratégica discursou em rede nacional na TV e rádio pedindo o fim dos conflitos nas ruas em todo país, prometendo assim que medidas seriam criadas e aprovadas no congresso americano em prol da liberdade individual e contra o racismo. Não deu outra, alguns meses após em que as medidas por pressão do presidente foram aprovadas no congresso, Kennedy era assassinado. E não precisa ser muito esperto para saber quem foi o mandante do crime; 

   Claro que os políticos do partido conservador que não aceitavam as modernas regras de direitos iguais para brancos e negros naquela época para aquele país. Após a morte de Kennedy foi empossado outro presidente, do qual não lembro o nome, e como a situação já estava em estado de guerra civil em todo país com o protagonismo do grupo radical de negros com cabelos Black- Power apelidados por Panteras Negras quebrando tudo, o presidente seguinte teve que agir, mesmo sem querer assinar as novas regras de direitos iguais entre brancos e negros, mas no final assinando-os por pura e espontânea pressão política popular e do partido democrata do ex-presidente Kennedy, este que plantou e deu sua vida para uma EUA mais igualitária como Luther King pressionava. 

  O filme é uma ótima aula de história e deveria estar concorrendo ao prêmio industrial do Oscar em Março, afinal o atual presidente dos EUA é o primeiro negro a assumir o maior cargo da mais rica potência mundial.
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   Glória, de Sebastián Lelio , Chile,2013. O elenco é encabeçado por sua protagonista: Paulina Garcia, sendo esta premiada pela interpretação com o prêmio de melhor atriz com o Urso de Ouro no último festival realizado em Berlim de 2013. A nossa protagonista é uma mulher solitária de 58 anos de idade, ativa ainda no mercado de trabalho, mas já sente que a terceira idade bate em sua porta. Como morava sozinha, pois era divorciada e os seus dois filhos já eram adultos e tinham suas respectivas famílias e moradias, esta jovem senhora passa a freqüentar bailes para a chamada terceira idade.

   Em uma dessas idas conhece um jovem senhor ( um pouco mais experiente que ela até ) que se encontra em processo de divórcio recente de apenas um ano de acontecido. Glória que era não só o nome do filme, mas também o nome da sua protagonist, resolve então tentar um namoro com esse senhor que gostava de dançar também, assim como ela. Por sorte de ambos a química na cama do casal é excelente de modo que continuaram a se ver e naturalmente a se relacionarem sexualmente com certa freqüência. 

   Glória sempre foi aquele tipo de mulher independente financeira e emocionalmente dos seus parceiros, era o tipo de mulher que chamamos na Bahia de "fêmea retada" que não leva desaforo para casa devida a sua personalidade forte e por sempre prezar por sua liberdade individual. Mas ainda com essa personalidade Glória investe nessa relação com esse dançarino experiente desquitado que era bom de cama. Investe tanto para que o namoro engate que chega a peitar as duas filhas do seu namorado e a sua ex-esposa.

    Mas o cara não respondia como Glória queria alegando que suas filhas, apesarem de já serem adultas, dependia dele e de sua presença, e fora da sua grana que as sustentavam por não estudarem e tampouco trabalharem, assim como a mãe. Resumindo: Esse senhor namorado da Glória sustentava as três mulheres: as suas duas filhas adultas e parasitas e a sua ex-esposa, também da mesma quadrilha. Como o cara não tinha coragem de acabar um casamento já acabado( se é que me entendem..)

  Glória por sua vez o manda plantar coquinhos com sua família egocêntrica. Ao mesmo tempo em que o cara dizia a Glória que o que ele mais queria era esquecer que teve duas filhas e uma ex-esposa, mas por questões emocionais não conseguia se livrar delas. Tudo isso é discutido durante o filme todo praticamente, ou seja, os D.R. ( discussões de relacionamentos ) da Glória com esse suposto namorado pareceriam que não teriam fim, tamanha as repetições desses diálogos chatos. 
Mas a melhor cena do filme é sem dúvidas quando a Glória se vinga da “família-carapato” de uma forma bastante peculiar e engraçada ( não contarei essa cena, aliás, vou contar sim, pois não compromete o assistimento do filme: pois bem, a Glória pega um fuzil de brinquedo de pintball e chega na porta da casa dessa “família-carrapato” e mete bala ( quer dizer, tinta) em todos os membros daquela família sem graça e coragem para oficializar o corte de laços, os quais já estavam cortados , mas por questões de um otário sustentar três fêmeas preguiçosas ainda permaneciam morando juntos,que cara otário mesmo hein?. 

  Enfim: fato é que o filme não é lá “grandes coisas” , porém a atuação da protagonista mereceu o prêmio em Berlim em 2013. Se o filme deixa alguma reflexão, acho que seria mais ou menos isto: Estamos sozinhos na jornada da vida, por mais que estejamos acompanhados acabamos por ficar sós de uma maneira ou de outra nessa caminhada solitária chamada vida, pois sempre nosso acompanhante pensará nele primeiro; Coisas da raça humana, por isso é bom nos “plantarmos”, o que quer dizer para quem não é soteropolitano e não conhece a gíria: que é bom confiar desconfiando.