segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Cultura

PRA MIM IRMÃ DULCE É SANTA DESDE QUE EU ERA MENINO, por OTTO FREITAS

Otto Freitas é jornalista e escritor
Otto Freitas , Salvador | 15/05/2019 às 10:33
Oratório de Otto Freitas
Foto: OF
Fui vizinho de Irmã Dulce no meu tempo de menino. Morava com meus pais no Caminho de Areia, mas não saia da casa dos meus avós maternos. Era só atravessar o terreno baldio, a rua Henrique Dias e alcançar a avenida Dendezeiros, passando por dentro da sede do Senai. Minha avó Celina morava em um casarão comprido de imenso quintal, com galinheiro e muita pitanga, goiaba, banana e fruta pão. Ficava bem em frente ao colégio da PM, a uns dois quarteirões do hospital Santo Antonio. 

  Pra mim, que nasci e cresci na Cidade Baixa, Irmã Dulce já era santa desde meu tempo de menino. Quem pegava o rumo do largo de Roma, Calçada, Comércio ou Cidade Alta tinha que passar em frente ao hospital. Por conta dessa proximidade, a gente sempre avistava a Irmã Dulce caminhando pelas calçadas, ou atravessando a rua em frente ao hospital Santo Antonio. 

   A veneração era tamanha que todo mundo - inclusive crianças e adolescentes - ficava na expectativa de ver a freira pelas redondezas, ou peregrinando pela rua Barão de Cotegipe e largo da Calçada, de loja em loja, em busca de donativos dos comerciantes locais.

   A gente cresceu aprendendo e cultivando o hábito de ajudar as obras de Irmã Dulce. Era como se ela fosse da família. Doavam-se roupas, calçados, cobertores, medicamentos. Periodicamente, alguém reunia o que parentes e amigos tinham a oferecer e se incumbia de entregar na sede das obras sociais. A gente fazia isso regularmente; gesto natural, compromisso com a santa adorada. 

  Desde esse tempo, pra mim Irmã Dulce era uma entidade, um ser superior. Eu via aquele imenso traje azul, branco e preto se movendo pelas ruas, como se fosse habitado por um espírito de luz sem corpo, pois só o rostinho miúdo e as mãos pequenas ficavam à mostra. As crianças lhe pediam a benção; os adultos faziam-lhe reverência, em busca de proteção e conforto.

   Sou católico não praticante, sou espiritualista. Aprendi, desde menino, a amar e respeitar a Santa Dulce dos Pobres. Ela sempre me emocionou com sua grandeza, força e luz, generosidade e tolerância. Não sei como sua alma tamanha cabia naquele corpo tão pequeno. É coisa de Deus mesmo, obra da natureza. 

   Faz tempo sou devoto da Santa Irmã Dulce. Tanto que há muito mantenho sua imagem, delicada e poderosa, compartilhando com São Jorge, São Cosme e São Damião e São Jerônimo um pequeno oratório improvisado no meu quarto-escritório. 

   A sua benção, Irmã Dulce. Enfim eles descobriram que você é santa desde sempre.