segunda-feira, 22 de abril de 2019
Cultura

ÁGUAS DE OXALÁ DE 2023, POR BADU, O INTELECTUAL DE BIGODE

*Jornalista goiano, brasiliense, baiano, manezin, pela ordem de morada
Eduardo Balduino , Brasilia | 14/04/2019 às 15:15
Clarindo segura o andor de Santa Bárbara
Foto: BJÁ

Precisei ter uma conversa séria, molhada, com muito dendê, com o Rasta do Pelô. Geralmente é ele que me liga aqui na capital das almas em conflito, me solicitando mediação em alguma quizira com sua dona Flor. Rasta sabe que eu sempre dou um jeito de dar razão à primeira-dama especialista na língua dos santos, e agradando ele um pouco – sem perder a consideração do casal (algo em falta, mas não na Bahia).

Rasta entrou em transe, pensei cá comigo, depois que comecei a falar citando o “imortal” Merval Pereira – neste ponto ele ainda falou: Seo Badu, imortal que eu conheço só o Senhor do Bonfim e todas as suas versões nos terreiros. E saudou, se benzendo, êpa-babá! 
Axé, Rasta.

Respiramos fundo depois de esvaziar os copos de uma talagada só, e que foram devidamente reabastecidos por Clarindo Silva – este sim deveria estar em Brasília: organizou o Pelourinho, organiza qualquer esbórnia.

Voltei ao Merval, e agora Rasta ficou que nem o gato, um olho em mim, outro na cachaça, aí encarnei a Emília de Sabugosa e li de um fôlego só:

     “Assim como Bolsonaro viu que havia uma brecha para disputar a Presidência da República no vácuo que a radicalização e a corrupção petista deixaram para trás, também Paulo Guedes entendia que depois do fracasso do que chama de fase esquerdista do país, representada pela social-democracia em que iguala os oito anos de Fernando Henrique aos 13 anos petistas de Lula e Dilma, havia espaço para uma politica liberal na economia e um programa de direita nos costumes (...)e Bolsonaro foi buscar Paulo Guedes”.

    Rasta do Pelô, famoso por suas filosofias mais transcendentais que suas próprias tranças, feitas com primor por dona Flor, filosofias essas empregadas na venda de miniaturas de atabaques e berimbaus para seus turistas do Terreiro de Jesus – “sabe, considerado” (é como ele me chama quando a conversa não entorta seus raciocínios), “a coisa não tá boa; melhora um pouquinho quando chega aquelas miniaturas de turistas com os oinhos rasgados, cheio de máquina e fotografando tudo e comprando um de cada”. 

    E já com os dois olhos vidrados em mim e os dois copos de cachaça nas mãos – o meu e o dele – vaticinou: “Volta pra Bahia, considerado, o Rio Vermelho te aguarda com os braços e as portas dos butecos abertos. Essa tal de Brasília definitivamente não esta fazendo bem a você. Você ouviu o que acabou de falar??? Clarindo, benze o nosso irmão”, solicitou.

   O Rasta me faz um bem danado – ele e meu pai Oxalá. Quando as coisas turvam para mim sem eu ter tomado um cajuzinho sequer, é a ele que me socorro, e os olhos do lagarto me colocam de novo realinhado; não sei se seria melhor ficar turvado, mas ainda tem uns erezinhos para eu tomar conta, então...

    “Tenho que tirar o Rasta do transe”, decretei a mim mesmo.

   Mas, antes de tomar os providenciamentos necessários, recebi uma lapada de amor que uma moça me mandou do Paraguai – era Nelson Gonçalves cantando “Rosa”, a música das músicas. 

   Devidamente romanceado, pedi a mestre Clarindo que nos levasse, para o Jardim Suspenso da Lua Cheia, a cobertura privada da Cantina, um reforçado angu de feijão, com bastante pimenta e que deixasse a garrafa de Saborosa na mesa – docinha, a gente nem vê quando Zé Pilintra entra na conversa.

   Usei todo o meu didatismo, que seu Franco Sincero costuma mangar.

    Rasta do Pelô – falei assim bem pausadamente – preste atenção. O Brasil teve 4 presidentes da República nos últimos 21 anos, quase 22. E cada um tinha uma receita diferente para a feijoada – não eram como dona Maria que Deus sabe a quanto tempo faz a mesma feijoada e a gente come feliz e satisfeito no meio fio perto da Kombi.

   A feijoada desses presidentes da República tinha que ser que nem a de dona Maria: forte, para dar sustança; muita, para todo mundo comer; barata, também para todos nós pudéssemos comer; sem quizomba: políça aqui na dona Maria, só para comer... Mas, meu baiano de estima, prato e copo; a feijoada deles nunca ficava boa. E cada um fazia uma zoeira diferente; cada hora o povo ficava brabo com os presidentes, depois começou a ficar brabo com o povo mesmo. E resolveram procurar alguém que acertasse a receita.

   Tá me acompanhando, ô Rasta?

   Política liberal na economia é emprego para quem precisa e, daí, dinheiro para comprar carne boa para a feijoada.

   Programa direitista nos costumes né bom não, Rasta. Podem querer que você corte o cabelo, e só dance capoeira na senzala. Mas isso a gente não deixa acontecer, com a proteção de nossos orixás.

   É o que Quincas disse, e Quitéria ouviu: “Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há”.
Vamos seguir com o nosso angu de feijão, nosso terreiro, nossa muqueca, nossa cachaça. Em outubro de 2022, a gente vai lá na urna eletrônica e diz assim: chega de especialista, quero um Presidente que entenda de gente. E que coma caruru na palha de banana com a mão.

   E nas Águas de Oxalá de 2023 a gente tira essa nhaca do corpo.

   É o que nos resta, irmão. E obrigado por me ouvir. Leva o angu e a cachaça para a comadre e diz que, com todo respeito, mandei um beijo para ela.