domingo, 18 de fevereiro de 2018
Cultura

NO MEU TEMPO DE MENINO a gente fazia máscaras com cascas melancia (TF)

A gente colhia as frutas na roça do meu avô e devorava-as só limpando com as mãos ou na camisa
Tasso Franco , Salvador | 06/02/2018 às 10:35
A arte com melancias
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   O tempo é como a andorinha do sertão: vai passando e a gente não consegue pegar uma delas. É como a água do rio que corre pro mar e não volta nunca mais. Digo isso porque no meu tempo de menino a gente tinha uma brincadeira que era fazer bonecos com cascas de melancia e não saberia dizer se, hoje, com os 'meninos-smartphones', ainda persiste essa usança. 

   Também não falo isso querendo que volte a minha época de criança na pequenina Serrinha, anos 1940/1950, porque nesses 70 janeiros que se passaram muita coisa mudou no mundo e é natural que as crianças de hoje pratiquem outras brincadeiras.

   Lembrei-me das melancias e dos bonecos na série que escrevo sobre o meu tempo de menino complementando que, nós, naquela época, tínhamos uma intimidade muito intensa com as frutas, mais do que com as verduras.

   A casa do meus pais no Largo da Usina dava o fundo para o sitio do meu avô paterno Jovino e era só atravessar o portão do quintal e andar pelas terras da roça que iam até o Tanque das Abóboras, público, numa margem e ao fundo; e na outra margem a cerca corria acompanhando a Transnordestina, a estrada que seguia para o Norte em direção ao Araci e a Pernambuco, daí que eu era um menino urbano-rural e melancia, umbu, cajá, goiaba, sapoti, manga, pinha e mamão eram coisas do meu cotidiano.

   Maçãs, uvas, peras, pêssegos e outras frutas que vemos hoje nas feiras livres da Serra naquela época não existiam. 

   As mangueiras ficavam no quintal da casa do meu outro avô, João Paes, na descida da praça Luis Nogueira, mangas espadas e rosas, na parte sul da cidade que distava de minha casa menos de 1 km. Tudo tão pertinho que a gente ia de um lado a outro da cidade em meia hora e se quizesse completar a hora numa esticada maior ia até o bairro do Cruzeiro que era o mais distante, depois da linha do trem.

   Melancia era uma fruta baratíssima que vendida na feira livre do sábado a gente fazia a festa. Um objeto que usavamos era o canivete de fechar que nunca mais ouvi falar dele, salvo os chiques da Suiça. Eram canivetes baratinhos e que a gente comprava no Largo da Federação. 

   Daí que fazer uma máscara com a melancia era uma arte. Tinha um menino, creio que era o Bacalhau, que fazia um buraco na melancia, limpava tudo por dentro, abria dois olhos, um nariz e uma boca e metia sua cabeça dentro fazendo assombraços. Era engraçado.

   A arte mais dificil era fazer um boneco feio, esperar a noite chegar, pegar uma vela, acendê-la, colocá-la dentro da melancia para ficar parecendo uma bruxa, uma malassombrada. E os meninos ainda uivavam feito lobos pra meter mais medo. Mas, ninguém tinha medo de nada, tudo era muito inocente.

  Quando falo que tinha intimidade com as frutas é porque no sitio do meu avô tinha uma cajazeira perto da casa de morada, pés de umbus perto do tanque, cajueiros, sapotizeiro, mamão de quintal e eu ficava esperando a época que amadureciam para retirá-las dos pés e catá-las no chão. E aí mesmo, sem lavar, sem nada, só passando a mão para tirar alguma impureza chupá-las. Tinha um cajueiro parrudo perto de uma cerca das Abóboras que dava uns cajus amarelos enormes, deliciosos. 

   Minha mamãe negra, Didi, fazia uns doces de caju de dar água na boca. Ela tinha uma técnica de fazer doce de caju na peneira posta ao sol, caramelizado, frutos secos, de matar de bom. Minha mãe de berço, Zildinha, era craque no doce de cajus em caldas.

   Umbu era uma fruta que a gente nem precisava subir no pé pra tirar. Tinha um umbuzeiro baixinho que quando carregava tirava-se os frutos com as mãos. A cajazeira era imensa e era perigoso subir para tirar as cajás. Meu avô avisava logo: - Não suba no pé de cajá que é altoe perigoso. As cajás eram amarelinhas e tiradas com uma vara imensa. 

   A gente dava mais valor aos umbus do que as cajás e a umbuzada era maravilhosa. A diferença para os dias atuais, ainda que existiam muitas crianças nas zonas rurais que ainda têm intimidade com as frutas, é que a gente colhia as frutas e deveroava-as no local da colheita. Claro que também levava algumas para casa. Agora, o trabalho de colher uma maior quantidade era de vovô e do seu leiteiro.

  Mamão era uma espécie de patinho feio. A gente não dava a menor importância. Comer mamão como se como hoje em dia, fatiado, nem pensar. 

  As mangas . ah!, disputadíssimas. Assim que floravam e começam a amadurecer eu ia pra casa de meu avô João para retirá-las das mangueiras. Minha avó Eleonor, que a gente chamava de "Filhinha" ou "Filinha" ficava preocupada que eu caisse. Eu e meu primo Franklin, filho da tia Celina e tio Renato, que também gostava de fazer essas estripulias.

   A gente também gostava muito de mangabas mas não sabia donde viam e como colhê-las. Estas só eram vendidas nas feiras livres dos sábados por senhoras negras, salvo engano do povoado da Mombaça, que apareciam com seus cestos lotados e cobertos com palhas de bananeiras. Apreciávamos mais o suco das mangabas do que as frutas in-natura ainda que também as comesse assim.

   Goiaba a gente também apreciava bastante. Chamava de araçá e os passarinhos disputavam conosco nos pés. Os cardeais e os bentivis adoravam bicar as goiabas. Não eram deliciosas. Tinha uma outra frutinha do campo que a gente gostava muito: o licouri. Comia-os in-natura quebrando os frutos com duas pedras - uma maior na base e uma menor para bater - ou cozidos. Na feira tinha senhoras da roça que vendiam cordinhas de licouris já prontas para o consumo. Essas eram deliciosas e baratíssimas.

   Outros produtos que a gente gostava muito eram o picolé de frutas. Ninguém fazia geladinho porque não havia geladeiras nas casas. Só lá pelos anos 1960, quando já estava adulto foi que surgiu o momento do abafa-banca um geladinho que fez grande sucesso na Serra. Os picolés a gente comprava na Sorveteria Itaúa, de Sêo Veloso, que era colocada com a livraria e tipografia de meu paí. Era freguês assíduo, nos sábados, quando íamos à praça, à feira.

   É verdade que muita coisa mudou de lá para cá nesses 70 anos, mas, alguns meninos nos dias de hoje ainda praticam esses hábitos.