ter?a-feira, 21 de novembro de 2017
Cultura

O LARGO DO PELOURINHO precisa mudar de nome. Conheça sua história (TF)

Conheça a história de mais uma praça de Salvador, o Largo do Pelourinho.
Tasso Franco , da redação em Salvador | 08/11/2017 às 11:09
Largo do Pelourinho. Prédio azul Fundação Casa de Jorge Amado
Foto: BJÁ
   Já comentamos aqui sobre a Praça Municipal (Thomé de Souza), a primeira da cidade do Salvador em sua mancha matriz, a Praça da Sé que praticamente nasceu a partir dos anos 1930 e sobre a Praça do Terreiro de Jesus, antigo campo de animais e depois de armas. Hoje vamos falar da Praça José de Alencar, o Largo do Pelourinho, coração do Pelô. 

   Todas essas praças integram a área da antiga Porta Norte (Santa Catarina) da Fortaleza erguida por Thomé de Souza, o primeiro governador Geral do Brasil, cargo correspondente a presidente da República nos dias atuais. Durante mais de 200 anos, Salvador foi a sede do Governo Geral até que foi transferida para o Rio, em 1763.

    No final do governo de Thomé de Souza e mudança para Duarte da Costa, em 1553, o chefe da Missão Jesuítica na Bahia, Manoel da Nóbrega, solicita ao representante da Corte portuguesa permissão para construir a sede de um colégio fora dos muros da cidade, uma vez que os tupinambás eram uns bobocas, pacificos e pacificados, e não havia perigo de invasões à fortaleza.

    Foi com essa permissão que Nóbrega e jesuitas ergueram o Colégio dos Jesuitas, fora da porta Norte, na altura onde é hoje o Museu da Coelba. Funcionou até a era pombalina, quando os jesuitas foram explusos do Brasil, por ordem do marquês de Pombal, entre 1553/1759. Nesse colégio, alfabetizaram muitos tupinambás e alisaram seus bancos escolares Gregório de Mattos, Antonio Vieira e frei Vicente Salador. Hoje e há mais de 100 anos, o Colégio Jesuita chama-se Antonio Vieira e situa-se no bairro do Garcia.

    Nessa direção foram erguidas a Catedral Primacial e havia uma rua à direita do Colégio, ainda existente, à direita da Praça da Sé no corredor da Primavera e outras lojas. No século XVII foi erguida uma nova catedral jesuítica, no Terreiro de Jesus, a partir da sacristia do antigo colégio, os franciscanos começaram a consolidar seu convento num prolongamento do Terreiro e foram surgindo em direção ao atual largo do Pelourinho, sobrados em estilo barroco. 

    O governo central então ergueu uma nova proteção, a chamada Fortaleza de Santa Catarina (ou segunda porta Norte) exatamente onde hoje está a praça José de Alencar, isso a partir do século XVII, aproveitando a estreita faixa de terra que dava no mar, a garganta do Taboão. O problema já não era proteger a cidade dos tupinambás e sim dos holandeses e franceses. Os holandeses invadiram a cidade em 1624. Depois, expulsos.

   Acima dessa fortaleza começaram a ser erguidos os casarões do Pelourinho que, ganharam maior dimensão com a derrubada da muralha, em 1790, e a aberturta dos Portos às Nações Amigas, em 1808, a Corte com Dom João VI passando pela Bahia e indo fixar-se no Rio de Janeiro, capital da colônia.

   A sociedade baiana se transformava de negócios mais rurais para urbanos, via porto de Salvador, e essa área nobre do Pelourinho próxima do porto e comércio da rua dos Mercadores (porta Sul) passou a ser habitada pelos comerciantes mais ricos e servir como locais de negócios.

   Então, o Largo do Pelourinho nasce com a derrubada da muralha (você pode conhecer pilares da muralha no Museu Gastronômico do SESC/SENAC), a partir de 1790, quando a cidade já tinha 241 anos de existência.

   O nome Pelourinho deriva de um local ou pedra em cantaria com argolas de ferro (diz-se que ficava na altura da, hoje, Fundação Casa de Jorge Amado) onde eram açoitados os escravos negros, os nativos tupinambás e os brancos portugueses. A maioria dos açoitados era de pessoas negras, os africanos e seus descendentes. Mas, o castigo também era aplicado a alguns nativos, que eles (os portugueses do poder) chamavam de indolentes e preguiçosos; e os europeus e seus descendentes que cometiam delitos - furtos, assaltos e mortes.

   Até hoje não sei por que colocaram o nome do indigenista e defensor da escravidão José de Alencar no largo. Esse nome, com todo respeito a José de Alencar, grande escritor e fundador do romance de temática nacional, autor, entre outras obras, da trilogia: O Guarani, Iracema e Ubirajara, deveria ser substituido. Como foi ministro da Justiça do Império é provável que seu nome foi imposto a partir desse cargo. 

    Mas, tanto a Rua Chile; quanto a Praça José de Alencar deveriam mudar de nomes. A Chile, voltar o nome antigo, Direita do Palácio e a Praça do Pelourinho, com esse nome, ou até Praça do Pelô.

    A expressão Pelô, corruptela de Pelourinho, surgiu (salvo engano) nos anos 1970/1980 para popularizar o local com inserções na música popular baiana, com Jorginho Comancheiro, Paulinho Camafeu, Tonho Matéria e outros. Não saberia dizer quem foi o pai da criança. Demandaria uma extensa pesquisa.

    Houve também uma discussão imensa quando do restauro do Pelourinho, anos 1990, se deveria colocar no largo, em frente a Fundação Casa de Jorge Amado, uma pedra ou pelourinho. Mas, decidiu-se não fazê-lo por ser um objeto de tortura. E, poderia folclorizar com turistas fazendo fotos com poses de acorrentado e assim por diante. 

   Esse debate ainda precisa ser ampliado. Em nossa visão deveria ter um pelourinho, a pedra da tortura no Pelô. É um símbolo muito forte e que marcaria. A questão é como traduzir isso do ponto de vista estético.

    Hoje, no Largo do Pelourinho, os monumentos mais importantes são a Igreja de NS do Rosário dos Homens Pretos, com cultos aos domingos e sempre aberta às tardes; a Fundação Casa de Jorge Amado, prédio de testada sul subindo o largo; e os conjuntos de prédios do SESC/SENAC com museu, teatro, rstaurante escola e outros. No mais, existem outros prédios onde ainda há um misto de residências e comércio. E mais: prédio onde funciona uma escola municipal de ensino fundamental. TF)

 COMPLEMENTOS

    Catedral Basílica atual: Foi construída no início do século XVII. É revestida interna e externamente de pedra e possui duas torres e abóbadas em madeira no teto. Na fachada, os nichos sobre as portas apresentam imagens de três santos jesuítas. No interior, as talhas dos altares contam a história da evolução dos estilos da arquitetura na Bahia. Está localizada no Terreiro de Jesus, Centro Histórico, Pelourinho.
 
    Convento de São Francisco : Começou a ser construído em 1587 com a chegada dos primeiros franciscanos.  As obras da igreja iniciaram-se na metade do século XVIII. A fachada é barroca, assim como os painéis de azulejos portugueses, que reproduzem o nascimento de São Francisco. O interior é formado por talhas de madeira com os símbolos do barroco: folhas, pelicanos, flores, anjinhos. Essa talha foi moldada com ouro em pó. 

   A nave central é cortada por outra menor, formando a cruz latina. As pinturas no teto, tem forma de estrelas, hexágonos e octógonos. Na sacristia, estão expostos dezoito painéis a óleo sobre a vida de São Francisco.  Os dois púlpitos laterais são talhados com folhas de videira, pássaros e frutos colhidos por meninos e recobertos de ouro. Está localizada no Terreiro de Jesus, Cidade Alta.
 
Igreja da Ordem Terceira de São Francisco - Data de 1702. Apresenta fachada em pedra lavada e é o único exemplar no Brasil que remete ao barroco espanhol. O projeto é de Gabriel Ribeiro, considerado um dos introdutores do barroco no Brasil. No teto encontram-se pinturas criadas por Franco Velasco. Localizada no Terreiro de Jesus, Cidade Alta.
 
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos : Iniciada nos primeiros anos do século XVIII pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Pelourinho. A fachada tem frontão e duas torres. Destaca-se em seu interior painéis de azulejos e três imagens do século XVIII, de N. S. do Rosário, Santo Antonio e São Benedito. Nos fundos localiza-se um antigo cemitério de escravos. Painel do teto de autoria de José Joaquim da Rocha. Localiza-se no Centro Histórico, Pelourinho.