quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Cultura

Crônicas de Copacabana: O fim da centenária Casa Cruz, por NARA FRANCO

A papelaria foi fundada em 1893, no Largo de São Francisco, por José Rodrigues da Cruz. Começou sua trajetória de 124 anos no prédio histórico da Travessa São Francisco de Paula,
Nara Franco , da redação em Salvador | 10/09/2017 às 18:40
Casa Cruz fechada
Foto: NF
Depois da boate La Cicciolina, Copacabana perdeu outro símbolo. A Casa Cruz, papelaria centenária da cidade, fechou as portas de suas lojas no Centro e no bairro da Zona Sul. Senti muito porque sou rata de papelaria. Posso ficar horas apreciando canetas, lápis e blocos. Sabe-se lá porque. Gostava de ir à Casa Cruz apreciar as novidades, que de fato eram nenhuma. O ambiente nem era assim acolhedor, mas eu ia de qualquer forma. 

Muita gente culpa a crise pelo fechamento. Também acho que ela tem peso nesse abre e fecha de lojas. Mas, como citei na crônica sobre a La Cicciolina, essas lojas não acompanharam o mundo moderno e acabaram perdendo clientes. Não anteciparam, por exemplo, o comércio via internet e não aderiram às novas tendências do mercado. 

O diretor-secretário da Federação do Comércio do Estado do Rio (Fecomércio RJ), Natan Schiper, em entrevista ao jornal O Globo, apontou a falta de segurança, a ocupação das ruas por camelôs, a alta carga tributária e os aluguéis caros como alguns fatores que provocaram o fechamento de pelo menos 22.411 estabelecimentos comerciais de bens, serviços e turismo na cidade, entre janeiro de 2015 e agosto de 2017, uma média de 23 por dia.

Assustador. A Casa Cruz vai deixar saudade para os mais antigos, principalmente para estudantes de Artes Plásticas e artistas. Vendia pincéis e telas raras de encontrar. Na parte de livros, era fraca. Pelo menos a filial de Copacabana. Mas tinha aquele cheiro de infância. 

Se bem que, quando criança, eu passava tardes e mais tardes na Casa Mattos, uma super papelaria e livraria que ficava em Ipanema e tinha filiais em Niterói e Nova Iguaçu (cidades da região metropolitana). Essa faliu. E vai entender como uma empresa vai à falência em uma época em que a concorrência era pífia e que mães e pais eram praticamente obrigados a comprar material escolar na loja. Até hoje ex-funcionários prestam homenagem à loja nas redes sociais. 

Fiz uma rápida pesquisa na Internet para achar os ícones cariocas que fecharam nos últimos anos. Como entender o fim da churrascaria Porcão?  Foram mais de 40 anos de funcionamento que praticamente ditaram como se come churrasco na cidade. Na onda vegana e da alimentação saudável, churrascaria virou item raro na cidade. E a Mesbla? Na Rua do Passeio, na Cidade, eu e meu avô íamos a Mesbla passear. Ele tomava um café com chantilly e eu me divertia com andares e mais andares de produtos. Fazer isso em uma Ricardo Eletro é impensável. Mas houve uma época em que lojas de varejo como Sears e Mesbla eram pontos de encontro da sociedade. 

Voltando à Casa Cruz: a papelaria foi fundada em 1893, no Largo de São Francisco, por José Rodrigues da Cruz. A então Casa do Cruz começou sua trajetória de 124 anos no prédio histórico da Travessa São Francisco de Paula, atual Rua Ramalho Ortigão. A rede logo expandiu suas atividades e reunia, até o último dia 1º, outras seis lojas: Niterói, Copacabana, Tijuca, Madureira, Campo Grande e Nova Iguaçu.

José Rodrigues da Cruz teve coragem. Em 1893, aconteceu no Rio de Janeiro a Revolta da Armada, quando navios da Marinha bombardearam a cidade. Era um protesto contra o presidente Floriano Peixoto. Nada de palavras de ordem ou cartazes: os rebeldes viraram os navios para a terra e "sentaram o dedo" como se fala no popular. O conflito só terminou no ano seguinte e, pelo que vimos, a Casa Cruz não foi afetada e se manteve firme até 2017. 

Agora é esperar qual loja ocupará o espaço na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Em se tratando de um bairro onde o comércio se resume a drogarias, aposto com vocês que em breve mais uma farmácia chegará por aqui. Conto assim que a nova loja inaugurar.