terça-feira, 22 de agosto de 2017
Cultura

CRÔNICA: Vá a Sé bafore um charuto e curta a Velha Bahia, TASSO FRANCO

A Sé, sua história, e como se encontra nos dias atuais. Vá conhecer a Sé.
Tasso Franco , da redação em Salvador | 12/08/2017 às 12:34
Praça da Sé nos dias atuais e rua Direita do Colégio onde passa um táxi
Foto: BJÁ
   A Praça da Sé é um dos locais mais visitados pelos turistas que veem a Salvador. É um sitio de passagem entre a mancha matriz mãe da cidade, a Praça Municipal, hoje, Thomé de Souza (el fundador), onde se situam a Prefeitura, antigo Palácio dos Governadores e a Câmara e ex-cadeia, e a Praça do Terreiro de Jesus, a boca das ladeiras que dão acesso ao Pelourinho e uma outra que se chega ao Cruzeiro de São Francisco e ao Saldanha.
   
   A Sé não nasceu como praça. Salvador foi concebida como uma cidade fortaleza amuralhada com a Rua Direita do Palácio em direção ao Sul fechada com uma enorme porta de madeira; ao Norte, na direção da Misericórdia, outra imensa porta; a Leste, a encosta (onde se situa o Elevador Lacerda) com bocas de canhão voltadas para o mar; e a Oeste, o charco natural onde hoje é a Baixa dos Sapateiros. 

   A cidade nasceu em 1549 esprimida nesse quadrilátero com ruas a Oste e uma igreja D'Ájuda de palha, palácio de palha e primeiras casas de alvenaria.
   
   Com Thomé de Souza e sua armada vieram seis jesuitas sob o comando de Manoel da Nóbrega, português de Coimbra, e no terceiro governo Geral, do Mém de Sá, esse superior da ordem solicita ao governador construir um colégio fora do muro Norte da cidade, uma vez que os nativos tupinambás já estavam catequisados e eram pacíficos, daí que não ofereciam perigo algum. 

   Dada a autorização, os jesuitas então construiram (com a ajuda do Estado) o Colégio dos Jesuitas, onde hoje se situa um prédio da Coelba, e posteriormente, a Sé Primacial, uma igreja. Colégio inicialmente frequentado pelos meninos tupinambás.

   A porta Norte da cidade ficava na altura da atual Igreja e Museu da Santa Casa de Misericórdia. A Sé Primacial foi construida depois da porta e seus alicerces (hoje, expostos) vão das proximidades da Loja Primavera, de instrumentos musicais, até a Cruz Caída, memorial de Mário Cravo Jr que se situa na área do antigo Belvedere da Sé. 

   A igreja era imensa - primeira catedral - e tinha o frontispício voltado para a Baía de Todos os Santos. Única na cidade nesse aspecto. Nesse espaço estão sepultados muitos portugueses e brasis quando Salvador ainda não tinha cemitérios.

   A área da atual praça era ocupada pela Sé Primacial e pelo Colégio dos Jesuitas e uma ruela (Rua Direita do Colégio) que dava acesso ao nascente Pelourinho em direção ao Santo Antonio Além do Carmo, local da aldeia tupinambá que os jesuitas colocaram o nome de Monte Calvário. 

   A nova e atual Catedral Jesuítica da Sé foi erguida no século XVII, na área da antiga capela do Colégio dos Jesuitas, e a cidade conviveu com a Sé Primacial até o século XX quando, a pretexto de passar uma linha de bondes, as picaretas do progresso derrubaram a Sé Primacial em 1933. O clamour foi de tal ordem que nasceu a partir daí o IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
   
   Vai surgir a partir desse momento a Praça da Sé já sem o Colégio dos Jesuitas e demarcada do lado Norte, na latedral da Catedral da Sé; no lado Sul num contorno de casas na curva do bonde onde, também no século XX, surge outra aberração, o Edifídio Thêmis; no contorno Leste, o que restou do Colégio dos Jesuistas, o Cinema Excelsior e o Palácio do Bispo; e do lado Oeste, o casario que compunha a Rua Direita do Colégio, com suas transversais - a mais famosa a Rua do Bispo - que dão na Ladeira da 28 no contorno do Convento Franciscano.
   
   Assim surgiu a Praça da Sé. Com o fim dos bondes (outra ignorância da cidade e dos seus gestores porque Lisboa é bem mais velha do que Salvador e até hoje tem bondes) a Sé virou terminal de ônibus. Tinha várias baias para abrigar ônibus que faziam linha Sé/Barra; Sé/Rio Vermelho; Sé/Pituba; Sé/Graça as linhas via Orla Atlântica. As linhas do miolo se situavam no Terminal da Barroquinha.
   
   Na década de 1980 a Sé entrou em decadência quase total. O bispo (arcebispado primaz) passou a residir no Campo Grande, o cine Excelsior se deteriorou, o Belvedere idem e a Sé virou um lugar de passagem e de prostitução. E, fixou-se nessa área e adjacências um forte comércio de instrumentos musicais e acessórios; restaurantes, lojas de bolachões musicais, lojas de peças de rádio e tv, de eletrônicos de uma forma geral, o que resiste até hoje.
   
   Nos anos 1990, a Sé ganhou a configuração atual, governo Antonio Imbassahy, passando a ser apenas praça com os veiculos trafegando pela rua Direita do Colégio, instalou-se um Memorial das Baianas e a Cruz Caída no antigo Belvedere e na área da Sé Primacial, descortinou-se os alicerces desta igreja prima, instalou-se uma fonte luminosa, uma estátua de Zumbi dos Palmares, outra do bispo Sardinha (o primeiro da cidade) e um paisagismo com bancos em mármore.
   
   Hoje, a Sé tem essa configuração e abriga alguns vendedores ambulantes (o que é absurdo) uma tenda de baiana do acarajé e os bancos são frequentados - em parte - por prostitutas que fazem ponto no local e atende os clientes (que ironia) em motéis na rua do Bispo. 

   É a Bahia fantástica que ninguém muda. Há uma convivência pacifica. Diga-se: não é única no mundo. Em Barcelona tem uma rua (Ronda de Santo Antônio) que é repleta de prostitutas para se dar uma rapidinha. Na Sé da Bahia, uma rapidinha custa, em média R$40.00. Com a crise tem aquelas que fazem por R$30,00 fora o hotel que custa R$20,00 - em média.
   
   O Edificio Themis, hoje, é um misto de residências, lojas e salas comerciais. Há, inclusive, alguns moradores que têm garagem no prédio na rua descendo para a Ajuda. Nesse prédio estão as lojas especializadas em artigos para o candomblé. Tem de pembas e adereços em metal, prata, colares, o que se quiser. Uma variedade enorme de peças.
   
   Em frente ao Themis se situa o ponto dos músicos da cidade. Se v quer contratar um saxofonista, um tecladista, é lá mesmo. Fica em frente da Primavera que é a loja mais antiga de instrumentos musicais. No corredor da Rua do Colégio tem outras lojas. Diversas. De artigos musicais, de souvenirs e CDs. Há também o CGC um restaurante que vende a melhor malassada da cidade.
   
   O cine Excelsior faliu. O prédio está fechado. O Palácio do Bispo está reformando e pode ainda ter vida. Mais adiante está o prédio da Coelba, em boa conservação, e o acesso ao Plano Gonçalves, o elevador (tipo bondinho) que dá acesso ao Comércio na Cidade Baixa.
   
   Na área dos alicerces da antiga Sé Primacial um filho de Deus fez uma horta e no outro tem um criatório de gatos. A Sé é essa maravilha. Vale a pena conhecer e curtir. Quinta feira é o dia da malassada. Vende também nessa tenda charutos do Recôncavo da Bahia. Vá a Sé baforar um charuto e curtir a Velha Bahia.