segunda-feira, 20 de novembro de 2017
Cultura

NO MEU TEMPO DE MENINO: Didi, a segunda mãe de todos nós, TASSO FRANCO

Uma história que começou em 1910 e foi até 13 de agosto de 1989. Ficam as recordações.
Tasso Franco , da redação em Salvador | 12/07/2017 às 09:39
40 anos do casamento de meus pais (abaixo). Celeste, Tetéu, Didi, Tasso
Foto: Arquivo pessoal
    Muitas familias brasis no século XIX e até meados do século XX tinham em suas residências babás oriundas da zona rual as quais, no decorrer dos anos e em convívios familiares, cresciam, moravam permanentemente e se tornavam espécies de segundas mães dos filhos, netos e bisnetos dessas familias. Era uma situação tão peculiar que, em alguns casos, essa 'maternidade' se tornava tão relevante que provocava ciúmes das mamães biológicas e os patriarcas precisavam administrar esses sentimentos para que não houvesse conflitos.

   No meu tempo de menino, em Serrinha, idos dos anos 1940/1950, conheci algumas dessas figuras e tivemos uma experiência de longos 79 anos com Elisa Augusta da Silva, babá que foi de meu pai, a partir de 1910, e também sua segunda mãe; foi babá e nossa segunda mãe minha e de meus três irmãos, a partir de 1940; e foi babá e segunda mãe de netos de meu pai e bisnetos de meu avô, a partir dos anos 1960 até os anos 1980, quando faleceu velhinha, em 28 de agosto de 1989, aproximando-se dos 90 anos e idade.

  Meu avô Joviniano Alves Franco (Jovino) era um roceiro e vivia na Fazenda Guariba desde final do século XIX. Casou-se em segundas núpcias em 1908 com Rosa Coutinho, depois de ter ficado viúvo. Meu pai chegou ao mundo em 1910. Minha avó era citadina e ele montou uma casa na Praça Manoel Victorino (hoje Luis Nogueira) para criar o filho único. Foi então que agregou à familia, uma menina baixinha, negra, fala mansa, chamada Elisa Augusta, a Didi, para servir de companhia a meu pai, levá-lo para brincar na praça, cuidar dele.

  Aquela altura, suponho, Didi, natural da Fazenda Alto, próxima da Guariba e do Matão, sem documentos de registro nascimento, teria algo em torno de 8 a 10 anos de idade, o que me leva a crer que teria nascido em 1900 por aí. Meu avô a registrou como data de nascimento 13 de agosto de 1900.

   Em 1923,  meu avô vendeu a fazenda e com o dinheiro e a casa da praça fez um rolo e adquiriu o chalé da Praça do Amparo, hoje Miguel Carneiro (praça da Catedral) e lá foram morar, ele, minha avô Rosa, meu pai Braulio e Didi. 

   Quando meu pai casou-se, em 1939, meu avô foi morar num sitio no fundo do chalé com casa na altura do ponto do Araci, atual, e deixou o chalé para ele, minha mãe Zilda e Didi. Em 1940, chega ao chalé o primogênito Bráulio, filho, e entra em cena Didi, a essa altua com 40 anos de idade, para cuidar dele. A familia tinha uma empregada doméstica, Josefa, e Didi cuidava do jardim do chalé donde tirava ganhos vendendo flores e servia de babá e segunda mãe. Foi assim com minha irmã, em 1942, comigo, em 1945, e com minha irmã caçula, em 1950.   

  O chalé era perigoso para crianças até 4 anos porque o acesso se dava por 4 escadas: a principal, pouco usada, chegava à sala das visitas e tinha acesso à rua por um portão a frente da casa; a lateral do lado direito do casarão - a principal - dava para a sala de jantar e cozinha e tinha acesso à rua que hoje leva o nome do meu avô; a lateral à esquerda da casa dava para o jardim e porão - uma das nossas preferidas - e era protegida por um muro alto e do outro lado ficava um beco que dava acesso ao Tanque das Abóboras; e a escada do fundo - também nosso preferida - que dava o quintal, um sitio, donde daí seguiamos para a casa do meu avô.

  Descer e subir e subir essas escadas para as crianças era uma arte e muitos e nós quebramos a cabeça, nada grave. Didi era nosso 'anjo da guarda' para vigiar se a gente estava indo em direção das escadas e ajudando a descer e subir quando pequenos. Quando a gente (os imrãos, amigos, primos) entrava no porão - repleto de morcegos - ela alertava meus país. - Estão no porão.

  O primogênito de meu irmão, nos anos 1960, Yuri, foi morar um tempo no chalé. Meu irmão estava casado de novo, três filhos, apartamento pequeno, vida apertada de oficial da PM, andou sendo transferido para Ilhéus, a gente já estava grande e o xodó de Didi e dos meus pais passou a ser ele. Antes, Eleanor, minha prima Nonô, filha da tia Celina/Renato também foi morar no Chalé, pequenina, e virou mais uma agregada de Didi.

   Depois vieram os filhos da minha irmã mais velha, Celeste/Tetéu - Adriana, Mileno e Marcel - e lá estava Didi a paparicar eles, pois, miha irmã construiu uma casa no fundo do Chalé. Veio minha filha Nara, morando em Salvador, e Didi ficou encantada com ela. 

   Era uma coisa impressionante. Quando meus pais completaram 40 anos de casados, em 1979, eis quem estava na linha de frente, na sala, com a familia (vide foto), assistindo um culto: Didi, a essa altura todo mundo grande. os netos de meu avô colocaram um novo apelido nela: Dicha.

  No tempo em que o fogão do chalé era a lenha a imensa cozinha era um ponto de concentração dos pequenos. Didi tinha uma maneira especial de fazer sua comida com um feijão tropeiro que só ela sabia organizar. Eu não perdia oportunidade de 'beliscar' sua comida. Minha mãe ralhava comigo, mas, eu não tava nem aí. Didi comia com as mãos e eu também. Uma delicia.

   Ela não sabia cozinhar. Só empratar. Agora, fazia uns doces que deixava-nos alegres: doces de groselha em caldas, de caju em caldas e caramelizado e de leite. No de leite perdia para minha mãe, Zildinha. Era outra que não sabia cozinhas, mas, no doce de leite era campeã. Didi era especialista num doce de caju que colocava os frutos numa peneira e secava-os ao sol. Depois dava uma flambada e acucarava-os. Só pra gente porque ela mesma nem comia. 

   Além da gente e dos bisnetos do meu avô tinha uma admiração enorme por meu pai. Deus no céu; Bráulio na terra. Poderia até ter seus santos, no seu quarto, sempre muito discreta. Mas, não era católica. A Igreja Nova (hoje catedral) era ao lado do casarão mas ela mesma nunca foi a misssa. Creio que nem conhecia o padre Demócrito. Sua vida era no casarão. Raramente ia na cidade, na Luis Nogueira. Nunca saiu do chalá pra nada. Não conhecia Feira, Salvador, Coité, nada. 

   Tinha outros xodós particulares: os papagaios. Nem sei onde os encontrava. Teve, ao longo da vida, uns três ou quatro, que os chamava de 'Lôro' e ensiva algumas palavras. - Esse aqui, dizia ela, fala Bráulio. - Esse aqui, fala Yuri. Tinha uma gaiola, aberta, onde os criava um de cada vez. Cortava a asa ou então previa  com uma correntinha pela pata. Quando os papagaios estavam tão acostumados com ela os soltava e não iam embora.

   Sofria de asma. A única doença que teve durante toda a vida. Meu pai era uma espécie de enfermeiro prático com 'pós-gradução' em dar injeções no pessoal das roças da Pedra, hoje, Teofilândia, e quando chegava o clima frio da Serra e ela começava a tossir ele ia na Farmácia de Sêo Isac Pimentel comprava um antibiótico (nem sei o nome) e aplicava. Pronto, ficava boa. Todo ano fazia isso. 

   Tinha seu quarto, seu armário, sua penteadeia. Mas, ao longo de toda a vida, nunca a vi de batom. Fazia uns crochés admiráveis. E cuidava do jardim como seu paraíso.

   Na segunda quadra dos anos 1980, em 28 de agosto de 1989, ela partiu. Meu pai ficou numa tristeza enorme e todos nós, filhos, netos, bisnetos. Resta-nos, pois, essas lembranças.